terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Notas de um dia qualquer

De alguma forma inconsciente você tenta fugir de algo. De uma coisa meio nova, mas velha no seu vocabulário sabe? Aquilo que sempre consta no CV mas nunca na sua derme. De alguma forma você tenta fugir e tão perto de envelhecer, velhas dívidas ( que a sua língua fez) aparecem sobrepostas e te cobram respostas, ou melhor, efetivações. Sopros de vida. Todo o barro amassado por diversas pisadas iguais fica ganindo por um sopro de vida e você se sente tão velho e tão triste. Talvez pela perda de tempo, pela exaltação inútil e nervosa, quando basta apenas ir e fazer. Ou talvez porque você perceba,que com o passar do tempo, aquele friozinho na barriga, aquela ansiedade tão gostosa pela vinda dos anos tenha se perdido. E agora com indiferença já é quase véspera. Talvez esse seja o legado mais infame da velhice: a perda das borboletas, dos calafrios.

Mas, e sempre, mas de alguma forma oculta, num nó dado em volta do seu pescoço, a razão da sua fuga seja de fato apenas um desvio para o retorno ao frio na barriga, que talvez exista ainda, mesmo que minúsculo, nesse pânico bobo de abrir os olhos de manhã e ser a mesma pessoa, só que com quase vinte e sete.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tempestades de verão

Me traduza pelas minhas músicas. Pelas minhas tristezas nem tão escondidas assim. Mas elas são falsas. São apenas gavetas vazias. Eu sou um armário. Entrei nessa pira. Eu sou um armário, cheio de roupas fora de moda e muito gastas jogadas. Mas eu tenho gavetas vazias. Parecia muito, mas é tão pouco. Essa coisa toda não me preenche. Não me faz. Ainda não faz. Depois de tanto tempo, parece o mesmo disco arranhado repetido inúmeras vezes. Você sabe do que eu falo, assim, quando eu sempre... Eu sinto isso aqui, isso, arrancado, um vazio espetacular. Uma foto de paisagem sem paisagem alguma, ou, ou com algo muito líquido, uma paisagem líquida. De humores vagos, como tempestades de verão, inundadas de raios de sol e gotas de gelo. Minha paisagem interna, melancólica, admito. Mas tão minha, como as mãos, que indecisas percorrem as possibilidades de traços, recheios e caem inertes num cansaço. Num vazio. Numa sensação de não pertencerem a esse mundo. A esse lugar/corpo/tempo.

Eu queria poder sumir nos dias de chuva.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Café

Um coador de café logo após sentir a quentura da água e o peso saindo pelos poros, fica assim atordoado. Um vazio se instala. Ainda há rastros borbulhantes na sua extensão, mas o calor não é o mesmo. E a sensação de utilidade já se foi. Resta a pia, a companhia dos copos, xícaras ainda enfumaçados, dos pratos com restos delicados de morango e creme. Um fim de tarde escoado e algumas vozes agora distantes e baixas sumindo da cozinha. Mas na memória, sim, coadores de café tem memória, fica aquele calor, aquela morte quente que o desfez fibra a fibra até se recompor numa morna massa marrom entrecortada de suspiros. E após lavado, horas depois, ainda na fibra, um sutil amarronzado fica na fibra. Até o dia em que o amarelo e o marrom carcomam por inteiro o branco do tecido, ou que as mãos se cansem de lavá-lo e venham a substitui-lo os frios e inumanos coadores de papel.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cacos

Como asas de mosquitos presas nas telas que separam o quarto do resto do mundo, assim seguem as intenções. Depredadas e mutiladas no percurso, até sobrar ao olho nu a visão da carcaça quase seca e desalinhada, puída, mole. Sem sangue. Na superfície dos corpos os letreiros parecem fincados muito, muito fundo, nem mesmo o neon atravessa a carapaça. Nem todas as idéias viram flores, nem tudo pode surgir do esterco. às vezes é só esterco mesmo e pronto. Não há como moldar assim tão depressa, remodelar em 2 horas. As intenções mutiladas jamais serão vistas no seu todo, jamais serão sentidas com doçura. Coisas coladas permanecem feias. Distorcidas, disfuncionais para olhos tão habituados com a certeza aséptica.

sábado, 5 de novembro de 2011

Quanto tempo demora?

Para o seu coração cicatrizar? Pra que eu pare de me sentir estrangeiro entre os meus? Para que o álcool pare de fazer efeito? Para que tudo pare... e seja o dia mais uma sucessão de horas enfileiradas. Me sinto tão estranha entre os que eram os meus, e talvez sobre uma ou duas pessoas nas quais fique inabalável. Talvez, não mais, não sei. Tanta pedra, espinho, capa, camisa, defesa, escudo, e aqui dentro reina essa liquidez. Essa coisa terna qeu fica oscilando, escondendo, morrendo no escuro. Vá entender. Mas há de ser assim sempre.


Esgueira-se no silêncio dos passos alguns pensamentos, e sempre ( por mais que não acreditem por ae) os meus melhores pensamentos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Roda gigante, goles de café e purgante

Tenho me remoído, parece que não. Mas cada gole, cada dia, cada hora, isso volta aos meus lábios. Me exaspera. Quando vejo, o assunto me morde com tal força que sangra. Mas eu sei que tenho razão. E não deve partir de mim o primeiro compasso. Acredite, me dói. Porque você manda recados altos de coisas que eu nunca fiz. Que só existem na sua cabeça, na sua fragilidade e por isso você não se atenta a minha. Eu não humilho. Eu me defendo. Eu nem sequer te sonho com qualquer má intenção, pra sua curiosidade: eu admiro todas as qualidades que existem em você. Sua criatividade, seu olhar altivo, seu modo carinhoso de agir quando assim lhe convém, sua inteligiência. Mas você apenas insinua que eu desprezo, que eu não vejo. Nunca vi alguém tão cega. Você bebe. Eu bebo. Mas eu nunca, em momento algum, no auge da minha raiva, encostei uma sombra do meu peso sobre você. E a primeira coisa que você faz antes de conversar é simplesmente atirar sobre mim o peso das suas manias, dos seus pensamentos duvidosos, das suas mãos. E agora fico eu aqui, me remoendo, pensando: pra que raios servem esses amigos que não me entendem? que conseguem pensar tão mal de mim? O que raios tem passado de mim para os outros? Eu não sei. Mas se só você vê isso, eu não devo temer o erro. A sua cegueira e a sua estupidez ainda assim não superam minha admiração pelos seus talentos, embora confesse que sinta uma antipatia pelas suas ações comigo, pelas sucessivas discussões disformes. Pela nossa tentativa sem êxito de nos compreendermos. Eu, não vou, deflagrar esse assunto. Eu quero desagua-lo de mim. Mudar pra longe essa sensação, mesmo que você vá junto com ela. Mesmo que o ano termine com mais um mal entendido. Não quero resolver jogos de cripto. Não quero explicar cada palavra e cada respiro. Desculpe, eu não tenho essa intenção. Que fique assim, eu no meu orgulho remóido, até que se dissolva essa pedra e você a fingir que nada acontece e a viver de acúmulos. E a morrer de venenos estampados.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

.Notas de um dia de verão atordoado

Quando as roupas estão novas demais, limpas demais, frescas demais evito passear pelos espaços, querendo não me sujar deles, mas preciso loucamente de algo além da lacuna. Dias de sol entorpecidos, baba escorrendo pelo queixo, uma vontade de nada somada a coisa alguma. E as pessoas já não me procuram, pelo excesso de afastamento. Mas nem sei quando a redoma se formou. O sol impiedoso faz suar lágrimas agora secas, mas não tristes, não deprimentes, apenas lágrimas, dessas de filme, dessas de alívio, dessas de nada, por pura sensibilidade. Esvazio copos na imensidão do abraço esperado. Renovo meus votos em pensamento e penso em dois ou três passos de dança, meneios de mão, mas não insisto em te mostrar meus rabiscos, mas fatalmente sinto falta de dividi-los contigo, J. Agora no sol, algumas conversas invariavéis sobre linhas e peixes e rimas e dicotomias e licores e nada além disso me fazem falta. C'est la vie. Não há muito o que esperar de verbos no passado. Nem de abraços não dados, nem de copos secos pela garganta também seca.

Pequenos idílios tocam meus lábios, voam vorazes e se dissolvem antes de completarem a primeira hora, assim seguem -se os dias e os nomes ficam empoçados em pedaços de nuvens, nacos de espuma boaindo na memória, apenas algumas coisas permanecem por tempo suficiente pra me fazerem ausência. Recomponho um odor uma letra um desgaste na intermitente procura por algo que não seja 100% composto de tédio. Pessoas me entediam com a velocidade de moscas sobre cadavéres. Assim como determinados lugares me dão calafrios pela escassez de ângulos. Voraz me ausento das possibilidades do dia, procurando nas gavetas abarrotadas de coisas algo que renegado ao esquecimento seja mais forte que a moleza do sol.