terça-feira, 11 de agosto de 2009

Micro contos soltos no espaço

Deixando as coisas meio de lado, assim meio rejeito, meio a parte, meio inteiro. Não tem jeito, desregulo o relógio logo pela manhã pra não ter tempo de olhar pra trás. Tanto faz. Tanto faz? Ah, sei lá deve fazer, já não tenho o tempo de uma respiração pra pensar. Um batimento a mais e eu posso estourar. Se isso ocorrer será que alguém pega meus pedaços no céu, tipo chuva de papel picado laranja?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Quando alguns poemas foram jogados do alto da escada e quebraram as pernas

Dificilmente dou nome aos bois, mas hoje acordei com um caco de vidro enfiado na goela, rasgando e sangrando, cuspi tudo que havia aqui guardado e pra minha surpresa não havia nada, além do cansaço. As minhas tripas não saíram do avesso. E eu fiquei escutando “Listen to your heart”. Quando o caco cortou mais fundo e as minhas cordas vocais ficaram nulas inventei uma desculpa pra toda o silêncio. Inventei desculpas pra não reler as antigas. Fiquei vazia. A cama toda sangrada e o peito calmo, mas as minhas linhas, as minhas linhas vibravam, os dedos convulsivos procuraram qualquer pedaço de papel, de parede que pudesse oferecer algum conforto. Mas nada, absolutamente nada, parece me preencher. Quantas vezes terei que dizer que aqui dentro é difícil? Que não adianta me guiar com toda a calma do mundo, que não adianta esperar alguma reação normal de mim. Quantas vezes eu já pintei esse quadro tentando explicar o funcionamento dessa máquina? Não existe um manual. Aperte esse botão para a ação X. Puxe a alavanca em caso de incêndio. Isso não existe. Não há espaço pra frieza, pra indiferença nas minhas linhas, eu não sei lidar com isso. Os meus braços estão sempre abertos por mais que se cortem, se quebrem, inchem ou tenham que ser amputados. A verdade é que eu me lixo pro medo de morrer, seja de amor seja de angústia ou de qualquer outro jeito. Somos seres efêmeros, passageiros num trem desgovernado que pode descarrilar a qualquer momento. Temos corações sensíveis que podem criar espinhos, que podem virar pensão de mendigos. Que podem ficar vazios. Caralho. Eu não sei ser concreto, sou de vidro, transparente. Negligente até mesmo. Porque não ligo se a ação será ridícula, se os poemas irão pra lixeira. Eu preciso de um depósito pras minhas besteiras, de furor, de fogo e fúria. Não sei entender receios, medos ou apostas. Principalmente porque eu sequei suas lágrimas inúmeras vezes. Estive sempre ao seu lado, com a garganta sufocada, mas sempre ao seu lado. E pra que? Pra você jogar todas as minhas esperanças numa lata de lixo em meio a camisas, fetos, jornais e restos do jantar de ontem. Melhor do que ninguém você devia saber da minha sensibilidade oculta, não pra palavras, porque eu te conheço e sei o que há por trás de cada uma delas, mas das suas malditas ações. Não quero uma placa de propriedade particular na sua testa. Não quer ter direitos sobre você. Mas imaginei que ao menos você soubesse lidar comigo e olha que coisa, não, você não sabe. Nunca tentou apreender. Eu tentei me adaptar ao seu jeito frio de fazer as coisas, ao seu modo delicado de ignorar qualquer drama. Mas eu gosto de Almodóvar. Preciso sentir que há algo vivo. E pra variar temos maneiras bem distintas de fazer isso. E ontem eu joguei tudo fora. Porque eu me cansei, há quase quatro anos de indas, vindas, quases, reviravoltas e discussões. Sei que a maior parte da idiotice é minha, porque eu cismo em tentar. Por que as vezes dá certo, por alguns minutos, mas é sempre um jogo frágil. E esse cansaço vem me consumindo. A última chama que havia dentro de mim apagou. Ficaram cinzas e escombros. E uma tagarelice barata, vontade de exorcizar todas as palavras que ainda querem dar voltas dentro da boca. Coisas que você nunca mais vai ouvir de mim. Dentro de mim não fica raiva, apenas uma magoa por você nunca ter tentado de fato. Sempre ter permanecido nas minhas bordas.

E como tudo uma hora descansa e morre esse texto uma hora vai perder a importância. Porque todas as palavras já estão mortas ao saírem da boca ou da ponta dos dedos. Pertencem a um passado frágil, numa via única.
Sindrome do passado recorrente
[ Estudo para um roteiro]

Deixo para trás o que pertence ao passado, você, suas músicas, seus risos e tudo mais que me deixava mais branda. Deixo de presente para a memória os ouvidos, as bocas, as tentativas, daqui pra frente mesmo que me doa muito, seguirei sem você. Mesmo que saiba de tudo que sinto, mesmo que você saiba melhor que eu, do meu desespero, da minha intensidade e do meu exagero. De todas as palavras e poemas que eu guardo dentro de mim. Você me conhece como uma sombra, mas nem de longe entende o que me move, o que necessita a pistola minha antes do derradeiro disparo. Você não pode conter meu coração num vasilhame de coca ou num saco de suspiros. Você não pode entender os meus vícios, as minhas amenidades e momentos ridículos. Desde o início não eramos peças do mesmo quebra-cabeças, mas eu quis tentar. Gosto da tentativa não certeira, do abismo que se abre num beijo salivado, gosto do perigo e do acaso. Fica aqui meu último dia dedicado a você, que não soube ver todas as coisas que eu tinha pra te dar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Comentário para um dia sem fim e sem relógio

Deixei espaços sem preenchimento, mudei a fonte dos meus pensamentos, todas as coisas são fora de ordem , jantar as onze e meia , café da manhã ao meio dia. E eu não me importo, só quero que a rotina não me pegue pelas mãos, gosto das seis da manhã, o ar ainda fresco, sem pessoas respirando afoitas e eu gosto demais de estar com algo que me conduz o riso. Algumas palavras pra tentar transcrever isso. Que desde que meu livro favorito voltou a estante, não passo um dia sem reler algum trecho e descubro sempre palavras novas que eu não sabia. A ordem das cenas não importa, os cachorros não correm só atrás de carros e do próprio rabo,de vez em quando eles fazem mais que isso.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pedaços da manhã numa sacola de plástico


Pareceu um enigma quando ela sorriu. Deixou pra trás um rastro de dúvidas e talvez algum pudor. Deixou para trás toda a cola que tinha no amor, sem sapatos alçando vôo pelas ruas de asfalto frio. Saiu sem jaqueta de aviador, sem poemas, saiu assim como que vai comprar cigarros pra nunca mais voltar. Deixou sobre a mesa as propostas, as idéias a mesa posta com a xícara de café pra caso você chegasse antes de ela resolver voltar. Poderia esperar por ela, assim sentado na mesa tomando café e ouvindo algumas das músicas favoritas que ela havia reservado pra esse momento. E apesar disso não ser premeditado. Em momentos de raiva ela até ensaiou o ato, mas sempre voltava atrás. Não se agüentava no silêncio. Precisava berrar que estava ali.


Saltou a rua de prédio em prédio por cada andar como uma lufada de fumaça parecia atravessar as paredes tamanha a leveza que se apoderava dela a cada passo. A cada metro que se distanciava. Sentia as pernas soltas, maiores do que de nascença. Espichava as mãos para o alto, na certeza de tocar as estrelas escondidas atrás das nuvens, adormecidas ainda naquela manhã sem rosto. Retirava do relógio uma hora por dia, antes roubava dele essa essência. O tempo cada vez mais perdido em relação a ela. E ela se divertindo.


Vestia pedaços de calmaria pra se aninhar. Atravessando paredes como respiro. Pareceu um enigma quando ela sorriu. Parecia até triste quando ela disse “sinto sua falta e odeio isso”. E de certa forma pareceu infantil. Mas era uma despedida. Agora que as horas se afogam e ela não volta da padaria. Era uma despedida e só você não percebe aquele jeito meio idiota dela de te dizer adeus.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem sabe amanhã?

Pedaços de papel voando pela janela de um apartamento. Fotos. Letras. Coisas intactas. Coisas inteiras. Caindo sobre os transeuntes como chuva, pesada, até um pouco cortante. Nacos de olhos, de frases, de poeira remexida. Um chão recoberto não de estrelas, mas de pedaços antigos de memória.

Jogou tudo que pertencia ao ontem fora. Todas as quinquilharias que pesavam sobre os seus móveis. Porta retratos, livros amarfanhados, pijamas velhos e suados. Tudo pertencente ao ontem passou pela tira da tesoura. Pelo azulejo português das unhas. Deixou apenas o indispensável. A camiseta do Clash, os CDs do Portishead e os Livros de Neruda. Ao resto, apenas o ar como resposta. Remexeu nas gavetas em busca de alguma coisa que ardesse. Achou um garrafa de conhaque. Fazia tempo que não se inundava. Passou os dedos pela beirada de um corpo de vidro trabalhado. Despejou a dose e sentiu o cheiro inebriar seus pensamentos.

Pegou uma das fotos rasgadas no chão. Não lhe dizia nada. Era um pedaço de rosto retalhado, como num filme de terror tipo B. Ainda curioso apanhou uma das folhas de papel amarfanhadas. Uma letra delicada, mas às vezes caricata, agressiva. Uma prosa? Será? Não tinha nada pra fazer. As pessoas passavam relutantes. Empurravam. Erguiam seus relógios dos pulsos indignadas. Como alguém poderia ficar catando pedaços de papel em pleno meio dia?

Desdobrou ainda um passo. Braços soltos pelo apartamento semi nu. Ouvia música leve e solta como um pássaro que tem a gaiola arregaçada. Respira. Ri.

Sentado no meio da calçada montando aqueles restos febris de palavras. A plena curiosidade de chafurdar na mente de um estranho? Ou de uma estranha? Estranha. A letra era coreografada demais para pertencer a um homem. Ordenava frases e ordens de paixão a medida que a caligrafia saltava ou ressentia. Desmentiu os relógios na passagem do tempo. Alongou-se em curva sobre o asfalto sedento de algo que não era seu.

Sentada numa poltrona verde antiga meio gasta. Por mais que se ressentisse, tinha prazer no que era velho. Gostava do cheiro do mofo. Era afeita ao sono que este lhe causava. Balançava os pés. O celular desligado. O telefone retirado do gancho. Somente a música preenchendo a lacuna que a noite abria. Pequenas estrelas corriam o céu estiradas de suas camas. Resolveu dar um passeio. Tomou um banho. “Magenta” tocando enquanto as gotas caiam sobre seu corpo. Morno. Enfiou-se no seu jeans favorito. Jaqueta preta e um cachecol. Ventava um pouco. Não fechou a janela, que o ar entrasse e retirasse o que sobrou da poeira dos seus pensamentos. Desceu as escadas. Um pouco de exercício para desgrudar o conhaque da língua. Na rua, abaixo da sua janela um imenso mosaico remontado das suas emoções perdidas. Um estranho jogado sobre elas em contemplação. Ela deveria se assustar. Mas se limitou a corrigir a última peça do poema. Sorriu.

Ela simplesmente sorriu. Deixou os passos ainda frescos e quentes pelo asfalto. Eu a conhecia mais que qualquer outra pessoa. Olhou para trás sem parar o passo. Segui o recado. Numa cafeteria próxima tínhamos ambos muito assunto. Por mais cinco horas e seriamos estranhos novamente.

O lixeiro passa com a sua vassoura, puto da vida por aquele lixo espalhado. Não viu a forma, o enredo, o acaso. Apenas o lixo das palavras em pedaços rasgados de papel. A falta do que fazer das pessoas, pensava ele. Deve ser um daqueles artistas plásticos moderninhos. Varreu tudo para dentro da pá e depositou sem importância dentro do carrinho de lixo.

A noite corria sem sustos. Tudo imprevisível, mas ainda assim dono de uma calma quase irreal.
O ataque dos RGs mutantes vindos de Marte

Fenda esburacada e cheia de dentes, a boca letárgica fica afeita as lembranças de discursos velhos, a pastiches, a clichês. O famoso dueto. Fico penando feito alma de filme, sem ter o que fazer, absorvendo as coisas que pobres chegam ao meu abraço. Corrijo as linhas, amanheço-as de um novo ponto de vista, mais irreal, talvez menos maduro. Perco o horário de propósito. Nunca cumpro prazos, gosto da idéia da irresponsabilidade consciente. Prendo o relógio numa forca e redijo uma extrema unção com açúcar de bala de goma. Adeus ao tempo e a todos os pretensos compromissos hipertensos. Que morram com formiginhas de Buñuel nas bocas. Alcanço a rua em poucos instantes munida de caneta e papel. Nos olhos opacos das pessoas reescrevo suas histórias e arranco de seus bolsos os Rgs. Identidade é pra que tem onde viver. Não apenas ficar vagando feito eu num limbo de relógios assassinados e romances eternalizados na desgraça de seus finais. Decadência é uma questão de ponto de vista e de classe. Charme barato pra pretensos malandros. Boca do lixo se foi nos anos 70. Maloqueragem da fina num saco preto correndo a rua Augusta cuspindo apitos. Palpite? Acho que deu curto na boca do cérebro e ele gorfou todo o aprendizado em fascículos dominicais. Espasmos secos de sensibilidade. Perdendo a noção de enredo. Qual a verdade? Sei lá. Procura no Google. Está lá em algum lugar. Internalizada em algum link fantasma. A boa da vez é a minha insegurança. A minha vantagem extra sobre o resto dos anormais. Afinal de contas a anormalidade é um bem adquirido. Por acaso, dentro do RG, nas filas do banco, no tratamento das senhoras de respeito para com nossas miseras diferenças. Não é mais questão de ofensa. É de senso crítico. De senso estético. De médicos. De clinicas. De espasmos. De parques. Vidas piratas enquanto o mundo explode na última mega produção americana. É o fim mesmo. Não do mundo, essa bola vai ficar vagando no espaço por muito tempo, mas as pessoas, ah, essas são conchas sem graça, brancas, sem perolas, achando que contém toda a esperteza do stand comedy. E a minha fenda segue destilando um veneno perfumado e pervertido por todas as ruas. Enchendo os bolsos dos transeuntes de poemas, de tristezas, melancolias, megalomanias, manias alheias. TROCO RG POR POEMA, QUEM VAI? Ninguém.. A poesia louca não agrada a todos os estilos globalizados e fictícios.

A identidade é uma farsa assim como meu riso.